As crianças estão sendo expostas a uma formação cultural que invalida suas emoções e sentimentos, o que as impedem de compreender quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas.
Texto: TIAGO BUENO CAMARGO
A área das emoções é uma área vital no processo de crescimento em direção à liberdade e à integridade. Qualquer pessoa que está no caminho do crescimento deve procurar saber da importância das emoções; que não devemos reprimi-las, que devemos chegar a um acordo com elas, que finalmente devemos liberá-las.
Mas nem sempre está claro como isso realmente funciona. Inclusive existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as nossas emoções e a forma como lidamos com as nossas crianças (de verdade).
Num domingo, por exemplo, eu estava ajudando minha mãe a carregar pratos e talheres para o salão de festas, pois era o aniversário dela. Repentinamente, uma criança de seis anos, chamado Rickson passa por nós chorando. Minha mãe pergunta o que houve. Sua resposta, choramingando: Meu brinquedo de argolas quebrou. Ela rapidamente com a intenção de ajudar, diz que não era mais preciso chorar, pois o brinquedo poderia ser aproveitado de outra maneira. Mesmo assim, ele continuou chorando. Eu prestava atenção ao que ocorria, pois sabia que a criança é sincera e espontânea em suas emoções e não as esconde nem as reprime, até que os adultos a incentivam a fazer isso. Antes que minha mãe insistisse no argumento, fiz uma intervenção dizendo:
- Mãe, deixa que eu converso com ele.
Eu tinha consciência de que preparar uma criança emocionalmente significa fazer com que ela cresça sendo capaz de suportar o sofrimento inerente à própria condição humana. Por isso peguei o garoto pela mão e fomos até um banco próximo. sentamo-nos. Procurei então, refletir o que ele estava sentindo, através de uma pergunta:
- Rickson, você está triste...
- Sim, responde ele chorando.
- Você também está chateado, não é mesmo... continuei indagando.
- Sim, estou chateado porque minha argola quebrou - disse ele.
- Só quero dizer que sua tristeza e chateação são bem-vindas e que você pode chorar - falei isso trazendo sua cabeça para junto do meu ombro.
Ele chorou por cerca de três minutos, enquanto eu acolhia e acariciava sua cabeça. As lágrimas então secaram. Ele ficou ao meu lado mais um pouco e logo saiu para brincar.
CHORA, CHORA QUE FAZ BEM...
Continuei auxiliando minha mãe com as atividades relativas à festa, até que outra criança apareceu chorando. A cena era idêntica à anterior, só que agora quem chorava era o Gabriel, de oito anos. O brinquedo dele era igual ao que o Rickson carregava e ainda havia sido quebrado no mesmo lugar. Minha mãe, obviamente, querendo o melhor para a criança, repetiu as mesmas palavras que utilizara anteriormente. eu intervi de novo, chamando o Gabriel. Algo parecia gritar aos meus ouvidos, chamando-me a atenção para um novo aprendizado.
As crianças estão sendo expostas a uma formação cultural que invalida suas emoções e sentimentos, o que as impede de compreenderem quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas. Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o coração aberto, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que parece irracional e impossível de se lidar.
Desde cedo, por exemplo, tenho visto elas serem ensinadas a dar as costas ao que realmente acontece dentro delas: medo, desespero, depressão e solidão. Geralmente houvem do mundo à sua volta: Afaste-se de emoções negativas, seja positivo, faça o melhor, seja útil.
Estes tipos de invocações e conselhos criam nelas um medo da sua própria sombra e as tornam alienadas dos sentimentos mais profundos. O que acaba acontecendo é que elas mesmas não conseguem mais entender o que se passa no seu interior. Por isso peguei o Gabriel pela mão e levei-o para um banco próximo afim de acender luz dentro dele, já que estava disposto a dar atenção à sua parte mais escura e negligenciada. Neste instante, coincidentemente, aparece o Rickson, falando-me o seguinte:
- Fala para ele o que você me falou.
Foi isso que fiz. Repeti para ele as mesmas perguntas e acolhi sua cabeça junto ao meu ombro. Repeti também que a tristeza e a chateação dele eram bem-vindas. Ele chorou muito, bastante mesmo. A minha surpresa, porém foi em relação ao Rickson que começou a falar ao Gabriel nestes termos:
- Chora, chora porque faz bem. Eu chorei e me fez muito bem.
A festa acabou e eu retomei o meu caminho de volta para casa. A cena, porém, acompanhou-me qual poeira colada às sandálias de minhas lembranças. Eu que já estudara sobre preparação emocional de crianças, via-me impelido agora a um novo aprendizado: ser original como elas. Quando me dei conta disso, de que me faltava a experiência de ser verdadeiro e espontâneo, foi impossível frear o pranto que convulsivamente, emergiu, lavando todo o meu rosto. Não sei dizer por quanto tempo duraram aquelas lágrimas. O alívio, porém foi imediato. Confesso que durante a última semana, a situação no ambiente em que trabalho foi bastante desafiadora para mim. Hoje, graças ao aprendizado que tive com aquelas duas crianças, consegui chorar o suficiente para liberar a dor que oprimia o meu peito. Eu sentia muito medo de não ser bom o suficiente, em face do que me era exigido. Esse medo, como é comum acontecer, havia sido abafado, sufocado, reprimido, tornando-me pesado, preocupado e tenso, visto que aprendi muito bem a esconder minha própria vulnerabilidade.
...
Paz e Vida,
Flor.
Flor.

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