Todos nós precisamos de uma palavra animadora, uma boa notícia, de um fio de esperança... quem sabe, ver uma luz no fim do túnel para abrir uma nova expectativa em um dado momento de nossas vidas. Por isso, aproxime-se, puxe a cadeira! A gente toma um chá em quanto conversa.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

MÃE, ENSINA-ME A CHORAR!

As crianças estão sendo expostas a uma formação cultural que invalida suas emoções e sentimentos, o que as impedem de compreender quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas.

Texto: TIAGO BUENO CAMARGO

A área das emoções é uma área vital no processo de crescimento em direção à liberdade e à integridade. Qualquer pessoa que está no caminho do crescimento deve procurar saber da importância das emoções; que não devemos reprimi-las, que devemos chegar a um acordo com elas, que finalmente devemos liberá-las. 
Mas nem sempre está claro  como isso realmente funciona. Inclusive existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as nossas emoções e a forma como lidamos com as nossas crianças (de verdade).
Num domingo, por exemplo, eu estava ajudando minha mãe a carregar pratos e talheres para o salão de festas, pois era o aniversário dela. Repentinamente, uma criança de seis anos, chamado Rickson passa por nós chorando. Minha mãe pergunta o que houve. Sua resposta, choramingando: Meu brinquedo de argolas quebrou. Ela rapidamente com a intenção de ajudar, diz que não era mais preciso chorar, pois o brinquedo poderia ser aproveitado de outra maneira. Mesmo assim, ele continuou chorando. Eu prestava atenção  ao que ocorria, pois  sabia que a criança é sincera e espontânea em suas emoções e não as esconde nem as reprime, até que os adultos a incentivam a fazer isso. Antes que minha mãe insistisse  no argumento, fiz uma intervenção dizendo: 
- Mãe, deixa que eu converso com ele. 
Eu tinha  consciência de que preparar uma criança emocionalmente significa fazer com que ela cresça sendo capaz de suportar o sofrimento inerente à própria condição humana. Por isso peguei o garoto pela mão e fomos até um banco próximo. sentamo-nos. Procurei então, refletir  o que ele estava sentindo, através de uma pergunta:
- Rickson, você está triste...
- Sim, responde ele chorando.
- Você também está chateado, não é mesmo... continuei indagando.
- Sim, estou chateado porque minha argola quebrou - disse ele.
- Só quero dizer que sua tristeza e chateação são bem-vindas e que você pode chorar - falei  isso trazendo sua cabeça para junto do meu ombro.
Ele chorou por cerca de três minutos, enquanto eu acolhia e acariciava sua cabeça. As lágrimas então secaram. Ele ficou ao meu lado mais um pouco e logo saiu para brincar. 

CHORA, CHORA QUE FAZ BEM...

Continuei auxiliando minha mãe com as atividades relativas à festa, até que outra criança apareceu chorando. A cena era idêntica à anterior, só que agora quem chorava era o Gabriel, de oito anos. O brinquedo dele era igual ao que o Rickson carregava e ainda havia sido quebrado no mesmo lugar. Minha mãe, obviamente, querendo o melhor para a criança, repetiu as mesmas palavras que utilizara anteriormente. eu intervi de novo, chamando o Gabriel. Algo parecia gritar aos meus ouvidos, chamando-me a atenção para um novo aprendizado. 
As crianças estão sendo expostas a uma formação cultural que invalida suas emoções e sentimentos, o que as impede de compreenderem quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas. Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o coração aberto, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que parece irracional e impossível de se lidar.
Desde cedo, por exemplo, tenho visto elas serem ensinadas a dar as costas ao que realmente acontece dentro delas: medo, desespero, depressão e solidão. Geralmente houvem do mundo à sua volta: Afaste-se de emoções negativas, seja positivo, faça o melhor, seja útil. 
Estes tipos de invocações e conselhos criam nelas um medo da sua própria sombra e as tornam alienadas dos sentimentos mais profundos. O que acaba acontecendo é que elas mesmas não conseguem mais entender o que se passa no seu interior. Por isso peguei o Gabriel pela mão e levei-o para um banco próximo afim de acender luz dentro dele, já que estava disposto a dar atenção à sua parte mais escura e negligenciada. Neste instante, coincidentemente, aparece o Rickson, falando-me o seguinte:
- Fala para ele o que você me falou.                                  
Foi isso que fiz. Repeti para ele as mesmas perguntas e acolhi sua cabeça junto ao meu ombro. Repeti também que a tristeza e a chateação dele eram bem-vindas. Ele chorou muito, bastante mesmo. A minha surpresa, porém foi em relação ao Rickson que começou a falar ao Gabriel nestes termos: 
- Chora, chora porque faz bem. Eu chorei e me fez muito bem.
A festa acabou e eu retomei o meu caminho de volta para casa. A cena, porém, acompanhou-me qual poeira colada às sandálias de minhas lembranças. Eu que já estudara sobre preparação emocional de crianças, via-me impelido agora a um novo aprendizado: ser original como elas. Quando me dei conta disso, de que me faltava a experiência de ser verdadeiro e espontâneo, foi impossível frear o pranto que convulsivamente, emergiu, lavando todo o meu rosto. Não sei dizer por quanto tempo duraram aquelas lágrimas. O alívio, porém foi imediato. Confesso que durante a última semana, a situação no ambiente em que trabalho foi bastante desafiadora para mim. Hoje, graças ao aprendizado que tive com aquelas duas crianças, consegui chorar o suficiente para liberar a dor que oprimia o meu peito. Eu sentia muito medo de não ser bom o suficiente, em face do que me era exigido. Esse medo, como é comum acontecer, havia sido abafado, sufocado, reprimido, tornando-me pesado, preocupado e tenso, visto que aprendi muito bem a esconder minha própria vulnerabilidade. 
...

Paz e Vida,
Flor. 

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